Resenha: Rivermann, EP de estreia da banda Rivermann Pular para o conteúdo principal

Resenha: Rivermann, EP de estreia da banda Rivermann

Não é de agora que se sabe da qualidade das bandas da região metropolitana de Salvador e o quanto várias delas vêm se destacando no cenário rocker baiano. Muito disso se deve ao empenho, realizado por cada uma delas, de fazer a música que gosta e na qual acredita. É com essa condição que a banda Rivermann surge na cena com o seu EP de estreia lançado pela Brechó Discos, o homônimo Rivermann.
Com sua origem em Camaçari, o grupo gravou cinco faixas autorais fortemente influenciadas pelo rock indie da década de 1990 e esse é um aspecto já perceptível antes mesmo de colocar o disco para tocar no cd player. O encarte, muito bem trabalhado por sinal, ajuda muito no clima do disco que o ouvinte está prestes a ouvir e traz referencias a essa vertente do rock com a aparição dos discos do Sonic Youth e do Radiohead na sua contracapa.
Sob olhares cuidadosos de bateristas na sua produção (Maicon Charles, ex-Weise), na gravação e mixagem (Leo Marinho, The Honkers), além da masterização (Jera Cravo, ex-Automata), a Rivermann faz muito bem o seu som e leva o ouvinte a se sentir como se estivesse em alguma cidade pacata e distante da capital, em meio aos pensamentos sobre a vida, cotidiano e relacionamentos. Exatamente como em filmes que se passam no interior dos E.U.A. onde o rock é a trilha sonora da salvação, e a própria salvação, para jovens e jovens senhores (porque não?) que ali vivem...
O disco já começa bem nessa vibe com Estilhaços. Introdução de baixo pulsante, guitarra cadenciada e explosão no refrão, exatamente como a letra avisa ao ouvinte. A guitarra solo nesta música já mostra boas sacadas de distorções que dão uma boa textura atmosférica a canção. Na sequencia, Radiante vem mais acelerada, direta, com uma letra mais angustiada e corajosa e um final empolgante. A terceira canção é Quase 30, uma das melhores do disco. Uma melodia grudenta, com um refrão mais pegajoso ainda e muito bom de cantar junto. A letra é uma verdadeira declaração de amor para aquela pessoa que se escolheu para envelhecer ao seu lado, escutando os seus discos preferidos ao mesmo tempo em que se compartilha o bom e o mau humor que uma relação carrega. Ela foi uma ótima escolha para o primeiro vídeo clipe da banda.
Instintos surge com uma veia mais psicodélica, começando de uma forma mais pop e cedendo bem cedo ao psicodelismo, com dedilhados das guitarras surgindo ao fundo dos sons de pássaros e de diálogos, acompanhada da bateria e do baixo embalando uma espécie de canção de ninar para um sonho inevitável que o teclado ajuda a segurar. As duas guitarras formaram bem a parede de distorção no final da canção e prepararam o ouvinte para a última canção do disco. Despedaçando Medos é o ápice do primeiro trabalho dos caras, e é onde as influências musicais deles mais transparecem. Há todo um clima daquele tipo de cidade citada no inicio da resenha dentro dessa faixa. Uma boa dose na medida certa de Sonic Youth e de elementos da new wave, como nos sons que emulam palmas durante a canção. A cozinha mandando muito bem, a sonoridade de cada guitarra muito bem escolhida e a quebra na música para mais um momento psicodélico, atmosférico, pós-punk nova-iorquino muito bem feito e sem deixar de ser pop amarram muito bem a música até o seu desfecho. Não foi a toa que ela foi escolhida para ser disponibilizada na internet antes do lançamento do EP.

A Rivermann coseguiu no seu primeiro trabalho manter a qualidade das canções desde o inicio até o seu fim, apostando em uma boa sonoridade que unificou as canções e deixou o EP mais conciso. O tom melancólico que está presente em alguns momentos nas letras, ou nas suas entrelinhas, também ajudou nesse aspecto e foi fortalecido pelo bom desempenho dos seus integrantes. É claro que Bruno Nunes, Everton Mendonça, Paulo Ricardo e Ericson França ainda são jovens com quase trinta e, por isso, ainda vão aprender muita coisa por essa vida, mas já se saíram muito bem em sua primeira investida.

Popular Posts

O Pulsar Rebelde do Rock Baiano nunca tem fim! Por Sérgio Moraes

O rock baiano, desde suas origens, sempre foi um terreno fértil para a inovação e a fusão de estilos. Se olharmos os textos de Léo Cima aqui do blog "Soterorockpolitano", você vai ver que o cenário atual do rock na Bahia continua a se reinventar, mantendo viva a chama de suas raízes enquanto abraça novas influências. Nos anos 70 e 80, o rock baiano emergiu com uma identidade própria, mesclando ritmos regionais como o samba e o axé com as guitarras distorcidas e a energia do rock. Bandas como Camisa de Vênus e artistas como Raul Seixas marcaram época, criando um legado que até hoje inspira novas gerações. Atualmente, o cenário do rock na Bahia é caracterizado por uma diversidade impressionante. Bandas como MAEV (Meus amigos Estão Velho), BVOE (Búfalos Vermelhos e Orquestra de Elefantes), Entre Quatro Paredes, Demo Tape, URSAL, LUGUBRA, Declinium, Venice e muitos outros nomes trazem novas sonoridades, combinando letras poéticas e engajadas com arranjos que passeiam pelo indie, ...

Resenha: primeira noite do 6° Festival Bigbands.

No ultimo dia 08/08 saímos de casa para conferir um dos mais esperados e importantes eventos da cena rocker baiana a ser realizado esse ano. O primeiro dia da sexta edição do Festival Bigbands apresentava três bandas distintas entre si, porém com boa ascensão no cenário local, que geravam uma expectativa pela noite que estava por vir.             O Rio Vermelho estava razoavelmente bem movimentado, mas nem mesmo uma queda de energia da rede elétrica, que deixou parte do bairro as escuras, diminuiu a ânsia pelo inicio das apresentações dos grupos Van Der Vous, Ayam Ubrais (Ipiaú-BA) e Lo-Han. O trabalho de divulgação do festival foi muito bem difundido, tendo o seu inicio há mais de dois meses, possuiu campanha de crowdfunding no site Catarse, alem de dois eventos que antecederam o festival propriamente dito (o Warm Up Bigbands e o Faustão falando sozinho convida Festival Bigbands). Mesmo com tantas ações, o publico deixou de c...

Série “4 Discos de Rock Baiano”: Rivermann, Wombs in Rage, Peleja e Todas as Cores.

Dando continuidade a série “4 Discos de Rock Baiano” daqui do Portal Soterorock, trazemos mais uma vez registros fonográficos bem distintos entre si, com obras recentes e também com peso histórico significativo para acena local. Aqui, há o bom dialogo com suas respectivas épocas e a qualidade das gravações é o elemento que atravessa os anos, e dá a liga entre bandas/artista. O indie, o groove, o stoner e o folk muito bem representados aqui na Bahia. Neste momento, destacamos os trabalhos das bandas Rivermann, Úteros em Fúria, 32 Dentes e André L. R. Mendes. Rivermann – Rivermann Com um som influenciado por grupos norte americanos de guitar bands garageiras da década de 1990, mesclado ao rock inglês dos anos oitenta, o quarteto camaçariense Rivermann lançou o seu homônimo trabalho de estreia em 2013. As guitarras distorcidas deste EP de cinco faixas possuem uma certa melancolia que abrilhanta os acordes das canções, guardadas por uma cozinha firme e segura. As suas letras, ...