A noite do segundo eterno.* Pular para o conteúdo principal

A noite do segundo eterno.*


Eu não queria dormir na noite da última sexta, de sexta para sábado, quando foi que ocorreu a sétima e última data desta edição do Festival Soterorock. Para mim, sendo muito particular, o dia não acaba exatamente quando bate meia noite, ele termina de fato quando se dorme, quando o corpo e a mente não se aguentam mais de maneira consciente, e quando não há outra coisa a se fazer do que deitar e dormir. É o verdadeiro limite. Aí você acorda e tem aquela sensação simultânea do reinício e o do que ficou no passado. Aí sim, terminou e começou novamente! Todos os dias são assim, inclusive no mais especiais, como este, que marcou a linha de chegada deste lindo projeto, neste passo adiante no qual o Portal Soterorock investiu dentro do seu propósito de contribuir na fomentação da cena local registrando o que acontece nela, passando a promover shows de grupos daqui.

Queria sim esticar um pouco mais o tempo, estende-lo o quanto pudesse para aproveitar cada momento do que foi este dia 30/09/2016, como um segundo eterno dos devaneios de Einstein, que fica cravado em algum lugar da memória e que é acessado com prazer toda vez que necessário. As ruas estavam mais calmas, vésperas de eleição sempre trazem essa sensação de como se não houvesse muita gente na capital. Mas, mesmo assim, houve um comparecimento bom de público no The Other Place, que foi crescendo no decorrer das apresentações e manteve a boa média de presença de pessoas para conferir as atrações da festa. Antes do início das atividades, Hell Burguers eram devorados com vontade e cervejas artesanais eram degustadas como cremes, isso tendo muita conversa boa ao redor e vendo até onde um raio infravermelho pode alcançar. Realmente impressionante.

Quem abriu a noite foi o cantor e compositor Duda Spínola, que fez uma apresentação bastante competente e acima do esperado por quem foi assisti-lo. Bem acompanhado pela sua banda, Duda Spínola tocou em seu repertório a maioria das canções que se encontram no seu EP de estreia, Direto ao Ponto, mostrando o quanto está bem envolvido com suas composições. Tudo o que você pode escutar em seu disco pode ser ouvido quando ele toca em cima do palco. Há um bom entrosamento entre os músicos, que faz a sua performance ser muito fiel ao que foi registrado e que valoriza ainda mais o seu trabalho. Mais uma vez foi mostrado o bom nível técnico do grupo, com destaques para o bom desempenho do frontman na guitarra, executando solos excelentes e com o seu impecável desempenho vocal.

Bem comunicativo e bem-humorado, o show do Duda Spínola teve bons momentos com as músicas Palavra, a aguardada A Vida Me Chama Lá Fora e o blues rock Ele e Ela, além da versão híbrida de Bete Balanço/Billie Jean, que ele poderia facilmente dizer que é dele. Com essa fidelidade sonora ele pode tudo. Foi mais uma ótima apresentação do Spínola. Em seguida subiu ao palco a banda de metal Awaking, a primeira do gênero dentro do festival. Demorou um pouco, mas valeu a pena esperar pelo dia no qual pude ver os rapazes se apresentando com o seu trash de nuances interessantes de sludge metal e metal alternativo. Foi uma apresentação catártica, um verdadeiro rolo de compressor em alto e bom som que agradou muita gente que estava por lá e que não conhecia o som do quinteto.

Fazia muito tempo que eu não assistia a um show de metal e esse supriu muito bem a minha falta com esse estilo, pois ali no tablado havia um esforço louvável de se tentar entregar uma boa apresentação para quem estava ali. A cozinha dialogando muito bem entre si, com o baixista groovando certo com o seu instrumento, enquanto as guitarras falavam pesadas e cheia de riffs competentemente grudentos e criativos, além da boa técnica vocal do Rafael Goncolli aliada a recursos de pedal que valorizaram ainda mais o seu desempenho e o da banda. Destaque para Breaking The Illusion e para a versão de Slave New World (Sepultura). Foi uma porrada das boas de um dos grandes expoentes do metal baiano atual. Encerrando anoite, diretamente de Catu, a Not Names se apresentou no Festival Soterorock com seu new rock com influência de bandas como Franz Ferdinand e The Strokes, mas com bastante personalidade.

Foi uma apresentação rápida, mas não no sentido de ter terminado rápido e sim pelo fato de suas composições terem uma velocidade peculiar, mesmo elas não sendo curtas. Houve momentos para dançar, ou bater o pé e a cabeça. Falaram só o suficiente com o público presente e não perdeu o fôlego entre as canções, que foram apresentadas coladas praticamente uma na outra e mantendo o ritmo do andamento, deixando o ambiente aquecido até o final da sua performance. Ainda no bis, eles tocaram Johnny B. Good, do Chuck Berry de uma forma interessante, do jeito deles, resgatando um artista pouco lembrando por aqui. Foi uma ótima sacada!

Este encerramento desta edição do festival foi feito com chave de ouro. Novamente com as bandas escaladas para esta data oferecendo ótimas performances para quem foi assisti-las e, dessa vez, utilizando muito bem os covers dentro dos seus setlists a seu favor. O alto nível das performances foi mantido e todos ali presentes ganharam muito com isso. Findada a festa, o caminho para casa era a única direção, com direito ainda a uma parada para degustar um bom cachorro quente na rua e ir direto para as nossas residências nos sossegarmos e pensar no quanto foi boa a noite e o quanto ainda estava sendo.

As horas da madrugada passavam e a sensação boa de dever cumprido para este momento se mantinha, o que era bom de se sentir. Os primeiros raios da manhã começaram a atravessar a janela do quarto e foi inevitável a minha entrega para o sono, mas enfim, isso teria que acontecer e me deixei levar. Afinal, a vida tem que seguir e pensar sobre esses sete dias são importantes para ir adiante com o Festival Soterorock!

De volta para o futuro e lá novamente.

No mínimo o que pode se dizer dessa edição do Festival Soterorock é que ela foi muito bem-sucedida. Tentamos ouvir e atender a todas as necessidades e sugestões de cada uma das vinte e quatro bandas que passaram pelo evento, tentando respeita-las ao máximo, para que elas pudessem ter o melhor em cima do palco e esperamos ter atendido a cada um dos seus anseios. Acreditamos que isso foi um motivador para ótimas apresentações ao longo do festival e a audiência ganhou muito com isso. A festa conseguiu também manter uma boa média de público pagante durante as sete datas de atividade, o que empolgava bastante os grupos, os envolvidos na organização e as casas que receberam o festival. Essa é uma mostra de que há gente interessada em ver algo novo e de que tem bandas se dedicando da melhor maneira para dar o melhor de si para quem se propôs a sair de casa para assisti-las.

Eu, Sergio Moraes e Kall Moraes, nos sentimos mais enriquecidos com essa experiência e felizes por viabilizar esse projeto e dar espaço para bandas de vários cantos da Bahia se apresentarem por aqui. Cada diálogo feito com integrantes de grupo foi igualmente valioso e bem-vindo, e tentamos valorizar com respeito cada opinião dada durante o processo. Também há de se considerar um agradecimento especial a Shinna Voxzelicks, que se juntou nessa empreitada ao lado de nós três e somou de maneira rica e significativa para que o evento acontecesse, muito foi aprendido com a troca de informações com ele e é algo que levaremos para próximas investidas. Assim como ele, devemos frisar aqui a importância do trabalho feito por Yolanda de Alencar, que se saiu muito bem na sua função dentro do evento e que entendeu a causa do festival de maneira serena e consciente. Muito obrigado a ambos por terem agregado valor ao Festival Soterorock.

Queremos ver essa cidade e esse estado cheios de iniciativa como essa. Ficaríamos contentes se alguma semente plantada aqui desse frutos saborosos para todos aqueles que estão envolvidos com o rock na Bahia. Mais produção que valorize o cenário roqueiro local é sempre bem-vinda e já estamos ansiosos pelo próximo. E, como lembrete, apoie a sua cena local! Vá aos shows das bandas autorais de sua cidade. Ajude-as comparecendo aos eventos que elas participam.

Mesmo sendo difícil estar em vários lugares em um curto espaço de tempo, escolha um som, pague a entrada e se divirta (mas não deixe o senso crítico de lado), compre seus discos e os materiais que elas oferecem, essa é uma maneira honesta e justa de ajudar um grupo a se manter firme na cena (pagando o ensaio, fazendo a manutenção de um instrumento, completando a ponta que faltava para a conclusão do seu cd, ou para comprar aquele equipamento que tanto necessitava). A cena baiana vive e está forte! Não fique de fora do que está acontecendo neste exato momento por aqui.

Mais dois recados importantes!

Visitem esses lugares: Taverna Music Bar, The Other Place e Buk Porão Bar.

E escutem essas bandas (e tem muito mais por aí): Os Jonsóns, Jato Invisível, Invena, Game Over Riverside, Os Tios, Jack Doido, Ronco, 32 Dentes, Vende-$e, Universo Variante, Kalmia, Quarta Ligação, Olhos Para o Infinito, Organoclorados, Pancreas, Declinium, Rivermann, Modus Operandi, Aborígines, Theatro de Seraphin, Neurática, Duda Spínola, Awaking e Not Names.


*Matéria originalmente publicada em 04/10/2016.

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